Por Domenique Bitencourt
Em um ambiente historicamente marcado pela rigidez e pelo masculinismo, a Major Lumen Lohn, da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC), tornou-se símbolo de coragem e representatividade. Primeira oficial trans da corporação, Lumen rompeu barreiras pessoais e institucionais ao assumir publicamente sua identidade de gênero dentro da PM. Hoje, enfrenta uma aposentadoria compulsória que, segundo ela, está diretamente ligada à sua transição.
Nascida em Santo Amaro da Imperatriz, Lumen cresceu com o quartel como cenário constante de sua infância. Filha de um coronel da PM e de uma professora, sentiu desde cedo um chamado para vestir a farda – ainda que, aos 11 anos, sua realidade interior contradissesse a imagem que esperavam dela. “Passei a vida inteira achando que tinha algo muito errado comigo”, relembra.“Eu verbalizava isso, dizia que havia algo estranho. Só que naquela época, eu não tinha referências, não tinha linguagem para entender o que era ser uma pessoa trans.” Lumen descreve o momento em que finalmente compreendeu sua identidade como um verdadeiro alívio. “É como andar a vida inteira com uma pedra no sapato, sem saber o que te incomoda. Quando entendi, tudo fez sentido. Foi como tirar a pedra e respirar de novo.”

Em 1998, ingressou na PMSC. Depois de formada em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina, destacou-se nas áreas de engenharia de redes, compliance e segurança da informação, além de integrar a gerência de redes de dados e mais tarde assumir a Diretoria de Saúde e Promoção Social. A transição de gênero de Lumen começou oficialmente em 2022, após mais de duas décadas de serviço militar. Em meio à rotina de policiamento e trabalho em inteligência, ela enfrentou uma das decisões mais difíceis da sua vida: comunicar à corporação que era uma mulher trans.
Antes de tornar pública a sua identidade de gênero, aguardou a emissão de seus documentos oficiais com o nome social. “A PM só reconhece oficialmente a identidade de gênero após a retificação do nome. Eu precisava ter isso em mãos antes de me apresentar de forma diferente no trabalho”, explica. O procedimento de alteração dos documentos, que costuma ser concluído em poucas semanas, acabou se estendendo por vários meses no caso dela, devido a uma série de imprevistos administrativos. Entre os obstáculos enfrentados, houve falhas no sistema e, posteriormente, uma enchente que comprometeu a estrutura física da Polícia Científica. De forma bem-humorada, comenta que enfrentou todos os contratempos possíveis ao longo do processo.
Quando finalmente fez o anúncio oficial aos colegas de farda, a reação foi surpreendente. “Eu preparei uma apresentação bem didática, com slides explicando o que é ser uma pessoa trans, como seria o tratamento adequado a partir dali. Fui aplaudida. Houve lágrimas. Foi um momento muito intenso”. Sua transição foi contada com coragem e transparência. “Comecei de trás para frente, explicando o que significava ser trans para só depois me apresentar”, relatou.

O reconhecimento dos colegas foi caloroso; mas o topo da hierarquia optou por abrir um processo para avaliar sua “capacidade moral e profissional”.Poucos meses após iniciar a transição, a Major Lumen foi surpreendida com a abertura de um procedimento administrativo que resultou na sua aposentadoria compulsória. A justificativa oficial foi o fato de ela não ter sido promovida — o que, segundo as regras internas, poderia gerar a aposentadoria automática. Mas Lumen questiona essa narrativa. “Eu não consigo ver como não há conexão entre o início da minha transição e o processo. O pedido de aposentadoria foi aberto logo depois que comecei a hormonização”. O uso de hormônios, que provoca modificações corporais, é acompanhado por profissionais de saúde e, embora não seja uma etapa obrigatória, representa um passo importante para muitas pessoas trans em sua afirmação de identidade.
De acordo com ela, o critério da não promoção na corporação foi baseado em “questões comportamentais” sem especificação clara. “Minha ficha é limpa, sem nada que desabone minha conduta profissional”, ressalta. O caso ganhou repercussão estadual após manifestações de políticos nas redes sociais e levantou debates sobre transfobia institucional. Atualmente, ela recorre na Justiça pedindo sua reintegração à Polícia Militar.
A trajetória de Lumen tem reflexos além da sua história pessoal. Ela lembra que não é a primeira militar trans em Santa Catarina, mas destaca que casos anteriores enfrentaram ainda mais dificuldades. “Uma sargenta no norte do estado precisou de determinação judicial para ter seus dados atualizados na PM, e mesmo assim esperou mais de um ano pela retificação”, relata.
Se a luta institucional e judicial ainda é árdua, foi no ambiente familiar que ela encontrou um verdadeiro porto seguro. Casada há mais de uma década, ela conta que a esposa foi uma das maiores incentivadoras durante o processo. “Ela foi a primeira a me dar um kit de maquiagem. Me orienta até hoje com roupas, com tudo. Eu sei que sou uma pessoa de muita sorte por isso.”
Os filhos também responderam de forma acolhedora. “Minha filha mais velha disse que já sabia. Já a caçula, com sete anos na época, entendeu tudo de uma maneira muito lúdica. Falei para ela que eu ia ser muito mais feliz se fosse uma menina. Ela aceitou numa boa”, relata. O filho mais velho, como a própria Lumen reconhece, teve um pouco mais de dificuldade. “Existe uma questão de machismo estrutural que pesa mais sobre os meninos.O medo de sofrerem bullying por ter uma mãe trans é real. Mas, até agora, não houve nenhum episódio grave”, conta.
Enquanto espera uma decisão judicial, a Major segue investindo em sua outra paixão: a educação. Com experiência como professora universitária, está atualmente envolvida em projetos de cursinhos populares e concluindo uma nova licenciatura em Matemática e Física. “Dar aula é uma das coisas que mais me dá prazer. Eu gosto de transformar, de provocar reflexão. Se não for na PM, vou fazer isso na sala de aula”, afirma.
A trajetória de Lumen Lohn – marcada por décadas de compromisso técnico, social e profissional – hoje reflete um barco à deriva entre reconhecimento institucional e discriminação velada. Sua aposentadoria compulsória, promulgada pelo governador de Santa Catarina Jorginho Mello, revela menos um fim e mais o início de um embate sobre identidade, competência e o direito de pessoas trans em ocupar todas as áreas da vida social. Com firmeza e dignidade, Lumen segue empunhando a farda, embora sem o distintivo, com a missão de transformar o futuro da Polícia Militar de Santa Catarina e além.
Em um estado onde, segundo dados do IBGE, menos de 1% da população trans ocupa cargos públicos com estabilidade, a história de Lumen Lohn é uma mistura de luta, resistência e esperança. Um retrato vivo de que políticas de inclusão precisam ser mais do que discursos — precisam ser práticas concretas.
“Eu escolho todos os dias lutar por dignidade e respeito”, afirma a major Lumen, que agora recorre à Justiça para reverter a aposentadoria e abrir caminhos para outras pessoas trans na corporação.
Domenique Bitencourt é estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)





















































