“Eu costumava dizer que sou filha do feminicídio, mas hoje digo que sou filha da coragem, do foco e da esperança”, disse a psicóloga e coreógrafa Lili de Grammont, em palestra que emocionou a plateia na manhã desta sexta-feira (12) na sede do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, em Florianópolis.
Seu pai, o famoso cantor Lindomar Castilho, matou a ex-esposa, a cantora Eliane de Grammont, com vários tiros enquanto ela interpretava a música “João e Maria”, de Chico Buarque de Hollanda, no palco do bar Belle Époque, em São Paulo. O casal estava separado, e Lindomar não aceitava o fim do relacionamento. Amplamente noticiado, o feminicídio ocorrido em 30 de março de 1981 tornou-se um marco na discussão sobre a violência contra a mulher no Brasil. Lili, filha do casal, tinha pouco mais de dois anos de idade. “Matei porque eu a amava demais”, disse Lindomar.

Entre relatos pessoais, reflexões sobre os impactos do feminicídio e trechos de músicas interpretados por ela mesma, a palestrante defendeu a necessidade de enfrentar não apenas o crime, mas também os fatores culturais que alimentam a violência de gênero. Ao comparar o feminicídio a um tsunami, destacou a importância de olhar para as “placas tectônicas” que antecedem a tragédia, como o machismo, a misoginia e a naturalização de comportamentos violentos.
Lili também chamou atenção para a realidade dos órfãos do feminicídio e para a necessidade de políticas públicas voltadas ao acolhimento dessas crianças e adolescentes — são dois mil todos os anos no Brasil. E foi ainda criança — através de uma prima — que ela descobriu que seu pai, o homem que ela tanto admirava, era também o assassino de sua mãe. Até então, acreditava que o crime havia sido cometido por um ladrão.
A descoberta marcou profundamente sua trajetória e foi atravessada pelo cuidado da avó materna, Helena de Grammont, responsável por sua criação após o feminicídio. Segundo a palestrante, a avó preservou sua capacidade de amar ao evitar que o ódio ocupasse o lugar da memória. “Não existe nada mais desumano do que tirar do outro a capacidade de amar”. Helena morreu de câncer quando Lili tinha 15 anos.

Ela relatou que, neste ano, ao conversar com o cabeleireiro enquanto se preparava para uma palestra, ouviu a seguinte reação ao mencionar o assassinato da mãe: “Mas também a sua mãe…”, evidenciando como a culpabilização das vítimas ainda permanece presente no imaginário social. Lili destacou a importância de incluir os homens no debate sobre a violência de gênero. Segundo ela, a experiência de conviver novamente com o pai após sua saída da prisão reforçou a percepção de que apenas denunciar a violência não basta. Para a palestrante, é fundamental compreender os fatores que moldam comportamentos violentos e abrir espaços de diálogo capazes de envolver os homens na construção de relações saudáveis e respeitosas.
Ao final, afirmou que encontrou na arte uma forma de elaborar o sofrimento. “Todo o meu luto virou dança”, resumiu. O público a aplaudiu de pé. A palestra, intitulada “Permita Que Eu Fale, Inclusive das Minhas Cicatrizes”, integrou a programação do III Seminário do Programa Indira, promovido pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica (Cevid), pelo Núcleo de Inteligência e Segurança Institucional (NIS) e pela Academia Judicial, em alusão aos 20 anos da Lei Maria da Penha. A servidora Fernanda Schlemper Carioni presidiu a mesa.
Violência Digital
Ainda na parte da manhã, a juíza Eunice Maria Batista Prado, do Tribunal de Justiça de Pernambuco, ministrou a palestra “Violência Virtual contra as Mulheres: elementos e limites probatórios”, em mesa presidida pelo juiz Marcelo Carlin, do TJSC. Especialista em inteligência artificial, a magistrada comparou os crimes virtuais à imagem de um travesseiro de plumas aberto em meio a uma ventania: uma vez espalhado o conteúdo, torna-se impossível recolhê-lo por completo. Para ela, a violência digital produz danos permanentes, atinge não apenas a vítima, mas também familiares e pode provocar consequências irremediáveis.
Como fio condutor da palestra, Eunice apresentou o caso da jornalista Rose Leonel, vítima de exposição íntima não consentida antes da entrada em vigor da Lei Maria da Penha. A história, retratada no documentário “Nua na Rede”, da HBO Max, envolveu o envio de milhares de e-mails com imagens da vítima e resultou, inicialmente, em punição considerada baixa diante da dimensão do dano. “Leis não faltam. O problema é que as leis não bastam”, afirmou a magistrada, ao defender formação específica para magistrados, promotores, advogados e demais profissionais que atuam nesses casos.
A juíza também chamou atenção para a falta de dados sobre crimes digitais contra mulheres e para a dificuldade de preservar provas antes que os conteúdos sejam apagados, replicados ou manipulados. Segundo ela, diante de uma vítima de violência virtual, o primeiro cuidado deve ser garantir apoio psicológico e psiquiátrico para mantê-la viva. Em seguida, é preciso agir rapidamente para preservar as provas, buscar a remoção dos conteúdos e assegurar acompanhamento jurídico e pericial especializado.

Vergonha para denunciar
Encerrando a programação da manhã, a professora Amanda Ferreira da Silva, do Unicesusc, conduziu a palestra “A Vergonha como Barreira à Denúncia de Violência Doméstica e Familiar”, em mesa presidida por Anna Paula Mandelli Alves, do TJSC. A pesquisadora discutiu como a vergonha atua como um dos principais obstáculos para que mulheres em situação de violência procurem ajuda e realizem denúncias.
Segundo Amanda, esse sentimento costuma ser construído desde a infância e reforçado por expectativas sociais e culturais que atribuem às mulheres a responsabilidade pelo sucesso das relações familiares. “A vergonha já é um afeto presente na vida das mulheres desde muito cedo”, afirmou. A professora defendeu o fortalecimento de espaços de acolhimento e escuta qualificada, capazes de oferecer segurança para que as vítimas rompam o silêncio e busquem proteção. “É comum a mulher não conseguir buscar ajuda justamente por se sentir responsável e culpada por essas experiências”, observou.
A programação do seminário prossegue durante a tarde com o painel “População LGBTQIA+ e a Lei Maria da Penha”, presidido pelo juiz Túlio Augusto Geraldo Parreiras, do TJSC. A atividade contará com palestras de Maíra Cristina Corrêa Fernandes, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD/CNJ), e do professor Alexandre Gustavo Melo Franco Bahia, da Universidade Federal de Minas Gerais.
O encerramento do evento será marcado pela palestra “Construção de Instrumento de Avaliação de Risco de Feminicídio, com Foco no Autor da Violência”, ministrada pela professora Dabney P. Evans, da Emory University, dos Estados Unidos, em mesa presidida por Michelle de Souza Gomes Hugill, do TJSC. A pesquisadora é reconhecida internacionalmente por seus estudos sobre violência de gênero, direitos humanos e saúde pública.






















































