Foram seis anos de uma jornada repleta de desafios, alguns perrengues, esforço e superação, mas que foi concluída com êxito. O jovem estudante negro que desenvolveu um método de estudo utilizando cartões de memorização de conteúdos (flash cards) e com isso conseguiu ingressar no curso de Medicina da UFSC, a partir de agora será o doutor Bruno Eulálio Santos. A cerimônia de colação de grau da turma de Bruno ocorreu nesta quinta-feira (9), no Centro de Cultura e Eventos da Universidade, no campus da Trindade.
Em 2016, Bruno morava em Contagem (MG) e estudava em escola pública. Após concluir o ensino médio, trabalhou por um tempo em um lava-jato na favela do Ressaca, mas a certa altura decidiu mudar-se para Santa Catarina e morar com a irmã mais velha. A condição foi a de que ele continuasse a estudar.

A situação financeira, no entanto, exigiu que ele também trabalhasse. Em 2018, ele trabalhava como faxineiro em um hospital de Balneário Camboriú e começou a estudar com o objetivo de ingressar em uma universidade.
Com pouco tempo disponível, usou a criatividade: criou mais de 300 bilhetes com resumos dos conteúdos estudados em um curso on-line que estava fazendo. Para aproveitar o tempo de deslocamento entre a casa e o trabalho, elaborou também cerca de 1.300 cartões com conteúdos de disciplinas, que levava no bolso. Essa história de persistência e foi tornada pública em uma reportagem do site de notícias G1.
Cartões ajudaram o estudante na preparação para o Vestibular e o Enem
Graças a essas estratégias, Bruno conseguiu ingressar no curso de Medicina da UFSC, começando seus estudos no segundo semestre de 2020. Apesar de iniciar em plena pandemia de Covid-19, ele acredita que isso não afetou a sua formação. “A pandemia foi um desafio para todo mundo, de adaptação à nova realidade. Eu fiz os dois primeiros semestres na pandemia somente, então eu creio que não tenha prejudicado tanto assim em relação ao meu curso, porque fez parte do ciclo básico, um ciclo em que normalmente é um contato mais acadêmico mesmo”.
Durante o curso, ele continuou usando o método dos flash cards, mas no formato digital, adaptado ao contexto de aplicativos. Também manteve atividades na internet: além de postagens e trabalhos em seu perfil, foi influenciador de um cursinho on-line de preparação para o Enem e o vestibular e realizou algumas publicidades, iniciativas que lhe trouxeram alguma renda durante um tempo.
Apesar de seu empenho pessoal e dedicação para manter-se por seus próprios meios, em certo momento ele precisou e obteve apoio das políticas de assistência estudantil da UFSC. “Meu trabalho com a internet nunca parou, o que sempre auxiliou, de certa forma. Além disso, eu sempre fui monitor do curso, então eu tinha bolsa de monitoria. Mas no final do curso a minha realidade financeira mudou bastante, aí eu precisei fazer parte da política de permanência estudantil”. Ele recebeu a Bolsa Estudantil durante dois semestres.
Hoje, formado em Medicina, suas palavras são de reconhecimento à educação pública e às políticas públicas de apoio aos estudantes. “O que eu posso dizer é que a universidade pública mudou a minha vida. Se não fosse a universidade pública, se não fossem programas públicos como o Sisu, como o ProUni, que eu também concorri na época, se não fossem as políticas de ações afirmativas, se não fosse a política de permanência estudantil, se não fossem projetos como as monitorias, que permitem que os alunos possam ter algum tipo de remuneração durante a graduação, eu não teria permanecido. Então, o impacto na minha vida é imenso, tanto intelectual como social”.
“Acredito que todo jovem deveria ter acesso à universidade. Eu nem digo fazer a universidade propriamente dito, porque cada realidade é uma realidade, mas ter acesso à universidade, pois é um ambiente muito importante para o crescimento não só intelectual mas como pessoal também”.
Ao avaliar a própria trajetória, ele tem consciência da sua conquista. “Com muito orgulho, o faxineiro conseguiu. Depois de muito sangue, suor e lágrimas, hoje eu tenho o prazer de falar que eu sou médico formado pela Universidade Federal de Santa Catarina”.






















































